18 de mai. de 2012

Ai se io ti piglio, ai se io te prendo


Como dizem os italianos, tchau!
Mas com isso eles (e inclusive elas) querem dizer chega mais, dos meu! Os portugueses, porém, sempre tão (achei o til num texto trazido do Brasil, e ainda fiz um versinho) tão espertos, eu dizia dos portuga, resolveram adotar o cumprimento para fins contrários, ou seja, para fins de despedida e assim é até hoje, embora estejamos usando mais o falou nas áreas juvenis do Rio Grande.
Mas o mundo com sua maledetta globalizaçao vem dando frutos cada vez mais indigeríveis. Sim, falo de música, ou pior, de pop brasileiro. Informo para vosso desgosto (como se não bastasse o inverno que ora entra, o fim do gauchato e o início dos pontos corridos do brasileiro ainda mais chato a ser vencido por algum paulista cariocado ou vice-versa) que aquela musiquinha idiota do cara aquele funciona em Perugia para ninar criancinhas. Uma delícia. Criança chora e a mamma se põe a cantarolar o hit do verão passado. O fim da picada, ou seja, o veneno se espalhou pelo corpo todo e o médico se encontra perdido nos becos entre um kebabe e uma Birra Peroni. Não existem antídotos. Não adianta sair do Brasile.
Claro, ou escuro, se preferir: eles ouvem também música boa: de Bach a Lucio Dalla, passando por Pavaroti e Pink Floyd. E o melhor: não ficam ouvindo música alta. E os magrão magal (porque os há) não ficam botando caixa de som potente nos autos. Talvez porque os Fiat sejam muito pequenos, que é pra caber nos becos e poder estacionar de qualquer jeito. Louvemos a tolerância dos italianos para com os italianos. Difícil ter briga de trânsito. O pessoal se vinga dos maus motoristas sendo mau motorista. E funciona. Loucos são os ingleses, que conseguem dirigir do lado errado e suportam cidades onde não bate o sol.
Aqui faz menos treze graus de noite, mais dez de manhã, mais trinta de meio dia e volta a esfriar de tarde. Venta sempre. Um vento que vai direto nos uvido do cara. Aquecimento na casa? Não sei como funciona, porque tem que pagar depois e não provei. Sou pão duro mesmo. Duro e sem sal, que nem os pães italianos. Mas sou sobretudo pobre. Difícil de explicar isso com essa minha cara de alemão, mas rezo para que o etíope que me pediu dinheiro há pouco na rua entenda. Esmola em euro é luxo. Gorjeta, então, nem se fala. É o principal motivo pelo qual não vou a restaurantes, bares, padarias e coisas do gênero. Gasto seis euros por semana para comprar um garrafão de vinho. E compro farinha no mercado pra fazer pão de frigideira. De noite, risoto de cogumelo, ou massa com tomate, que são as coisas que se podem comer por centavos aqui. Sobremesa? Chupa os dedo.
Perugia, particularmente, está cheia de chinês, dos quais alguns são sul-coreanos e taiwaneses. Lamento não ter sido educado para ver a diferença tão nitidamente quanto a que vejo entre um alemão e um inglês. Na rua também se podem encontrar árabes, indianos, tedescos, franceses e italianos, naturalmente. E americanos. Sempre rosados, com um mapa na mão. A Itália é um dicionário plurilingue.  
Se eu fosse mais espírito de porco, diria que o italiano típico tem trinta e três anos, mora com a mamma, usa jaqueta de couro cor de cocô mole, camisa rosa “não sou gay por mais que pareça” por dentro da calça jeans coladinha no rego, sapato vermelho ou azul, cabelo crespo tipo poodle alto em cima e rapado dos lados, sobrancelha recém feita tipo “não sou gay por mais que pareça, tá?”, uma cerveja Perondi na mão esquerda, um fone de ouvido/celular e um megafone na mão direita colado à boca pra falar ainda mais alto do que os demais italianos típicos (e turistas, e estrangeiros em desenvolvimento). Na mesma linha, eu poderia dizer que a italiana típica é uma baranga stricto sensu, com cabelo pintado cor de táxi de Porto Alegre, óculos rosa, shortinho azul ou verde evidenciando a ausência de bunda, pés tortos descalços, sapatos de salto alto na mão esquerda, celular na direita, capacete de vespa sob o sovaco, motoquinha entre as pernas, namorado com pitbull sem orelha cortada por perto. Isso no frio. Se faz sol, ela levanta a blusa e bota a pancinha pra pegar um bronze. Mas esses são apenas dois exemplares de peruginos que vi na rua. A maioria dos italianos e italianas chama menos atenção. Seria como dizer que o brasileiro típico é pagodeiro, tem cabelo descolorido com acetona, anda de cueca aparecendo pra fora da bermuda, o retrato do Belo do Conjunto Musical Os Marotos, se vocês se dignam a recordar. E a brasileira típica, para formar o par perfeito, seria a Carla Peres. Ou a Sheila Carvalho. Um tchan.
De futebol, digamos que a Perugia (nomes de times femininos, própria coisa italiana, mas é porque se diz squadra, em vez de time, clube) a Perugia venceu a quarta divisão e deve disputar a terceira ano que vem. E a Ternana (vermelho e verde, o que agradaria aos torcedores de Juventude e Inter, que abundam – mais bundam do que a – em Caxias), a Ternana de Terni venceu a terceirona e subiu pra Série B, feito que o Caxias igualará este ano em nível brasileiro, se a CBF deixar. A propósito, como anda o Ricardo Teixeira? Ou melhor, o Andres Sanches? E o Mano, convocou o Oscar do Sao Paulo ou o Oscar do Inter? Vale convocar jogador sem time definido? Se sim, indico meu amigo Pablo da várzea da Intercap para o lugar do Josué.
Aqui tem uma quadra de basquete sempre cheia de chineses baixinhos. Os representantes africanos, ao que parece, são sacerdotes que vêm aprender italiano para depois pregar a palavra de Cristo na língua do vaticano (na verdade, era pra ser latim, mas sacomé, ninguém tem tempo pra aprender a diferença entre dativo e genitivo, entao vamos todos de italiano, que é a língua latina com menos palavrão – só vafanculo, putana e stronzo, que nem palavrao é – quer dizer medroso, ou cagão, se preferirem). Futebol, que seria bom, só fora da cidade, no exíguo espaço entre uma oliveira e uma ruína etrusca. A Itália só é tetra campeã mundial porque venceu duas copas nos anos 30 (Mussolini), uma em 82 (Paolo Rossi) e outra em 2006 (cabeçada de Zidane em Materazzi).
Mas chega de falar mal deles, que são tri gente boa, eu é que sou subdesenvolvido e não consigo entender.
Esse era pra ser o fim do texto, mas eu quero continuar escrevendo. Do que posso falar? Ah, sim, do Caxias, que quase ganhou o campeonato do Inter. Melhor os colorados comemorarem, que esse será a única coisa que ganharão esse ano. Vale a pena pagar um milhão pro Dallessandro, outro milhão pro Bolivar, outro pro Wilson Matias, outro pro Lauro, outro pro Paulo Brito e ainda outro pro Celso Roth (essas demissão sem justa causa...)? Mas pior é o Grêmio, que gasta tanto quanto e nem vice do gauchão consegue ser. Gladiador... Vi alguns em Roma, pedindo esmola na frente do Coliseu. Os americanos, sempre dispostos a estender a mão para jogar uma bomba ou bater uma foto, usam-nos (os gladiadores) para brincar de espadinha, enquanto suas mulheres de terninho fazem fotografias a serem mostradas depois na América (pois a América é os Estados Unidos – nós, com nossa desunião, não merecemos portar o nome do continente).
Fim? Agora sim.
PS: a palavra piglio se diz pilho. E prendo se diz prendo mesmo. 

11 de mai. de 2012

A Itália é uma bota


 Como dizem os italianos, ok.
A Itália é uma bota. Nao se sabe quem calça essa bota, mas é certo que nao troca de meia há muito tempo.
De outros odores, destaque para o perfume de laranjeira dos jardins católicos apostólicos romanos, logo atrás do Coliseu, aquele destroço onde lutavam homens e leoes, mais ou menos como hoje fazem os japoneses e americanos com suas cameras fotográficas. Mas prendamos o fôlego e mencionemos  também o cheiro de mijo mofado que ocorre nos mais escuros becos à noite e integram a umidade latente (patente, se se trata de fazer o número dois) dessas cidadelas fortificadas etrusco-medievais como Perugia (o centro do mundo, segundo o mapa mundi apresentado nas escolas brasileiras do sertao). Ufa. Podemos respirar. O dia amanhece e o povo do primeiro mundo se bota a jogar sacos de lixo pela janela. E, antes que passe o lixeiro, sempre surge um dálmata (vira-lata primeiro-mundista) para espalhar a cacaquinha italiana pela calçada (como sao as ruas aqui – tudo calçada a ser dividida com os automóveis e as lambretas). Mas é como dizem os descendentes de Nero e Calígula: “Primeiro mundo é a puta que pariu, isto é, os tedescos. E a culpa é dos marroquinos”.
Marroquino quer dizer qualquer descendente de Alá. Ninguém quer saber de onde de fato vêm esses paquistaneses. O importante é pra onde vao, e que seja pra bem longe das criancinhas. No Brasil, por outro lado do oceano Atlântico, se diz que a culpa é dos brasileiros mesmo. E dê-lhe polícia a fazer atraque em preto ou quase preto, como dizia o Caetano Veloso, o branco mais branco do Brasil (quer dizer, antes dele vem o Chico Buarque). Poder-se-ia afirmar, com a mais presunçosa das mesóclises, que o Brasil é uma Itália e um Marrocos e uma Albânia e um Iraque e uma Líbia que se sente um Estados Unidos melhorado, porque teve um presidente sem um dedo e uma presidenta sem (rápido, me digam algum golpe baixo a ser dado na Dilma, rápido!). Porra, e nem futebol a gente joga mais.
Na Itália eles chamam isso de calcio, porque o museu Leonardo da Vinci provou, entre uma Monalisa e uma Santa Ceia, que esse elemento químico (de símbolo Ca, fileira 2A da tabela periódica, onde se encontram os óxidos e outras bobagens, se me lembro bem das liçoes da psora Deojanira), esse elemento é o que permite o ser humano a meter a bola entre as traves e o travessao, desde que ela passe pelo goleiro, sempre que exista. E nao percamos de vista que esse coitado também é dotado de calcio, portanto tem, segundo a praça Dante Alighieri, todas as condiçoes de fazer o seu trabalho e ser uma pedra nel mezzo del camin de quem tenta fazer gol, ou meter a bola pra dentro, como preferem os afrescos de Caravaggio.
Mas divago. Doutor Divago. Onde é que eu tava mesmo? Em Perugia, Via della Viola, perto della Via del Fumo (ontem mataram um cara por aqui; dizem que um libanês que trabalhava pra máfia umbra, ou napoletana, ou romana, ou à milanesa, nao sei – de qualquer modo, é sempre mais chique do que trabalhar pro Alemao do morro do Sabao). Aqui meia noite. Aí oito. Daqui a pouco deve ter Copa do Brasil. O Gremio tem que jogar de novo contra o Fortaleza, certo? Sinto muito. E o pofexô, como vai?
E o Inter, hein? Escalando jogador irregular pra poder empatar com o Caxias... Que feio. Que vergonha.
Aqui eles dizem senso dell’umorismo em vez de senso de humor. No Brasil, só tem senso de humorismo quem faz mestrado sobre Millôr Fernandes, Chico Anysio, Tom Cavalcante, que Deus o tenha.
O melhor de tudo é que na Itália nao é preciso ter relógio, desde que se aprenda a usar as igrejas, isto é, os campanelos, ou seja, os campanários, quer dizer, os sinos, aliás, os badalos, bimbolaros, badauês, abadás, berimbaus, dins e dons que anunciam o passar dos quartos de hora. Per esempio, 3 blemblemblens inteiros, tonitruantes (viva a língua portoghese) significam 3 horas, mas 3 toques débeis (dez decibéis) informam que faltam 15 minutos para a hora cheia. E così via.
Importante informar que se pode pegar ônibus sem pagar. Depois tu fica torcendo pra nenhum fiscal aparecer. Mas nao aparecem. Dizem que fiscais, na Itália, sao tao raros quanto acentos indicadores de nasal, a saber, o til. Vai ver é por isso que ninguém consegue pronunciar a palavra pao por aqui.
Agora vejamos uma típica fala italiana:
“Ok. Certo. Va bene. Poi. Allora. Dunque. Adesso. Quindi. Ebbene. Ecco. Vediamo. Insomma. Arrivederci”
E uma possível traduçao:
“Ok. Certo. Beleza. Entao. Portanto. Pois. E agora. Entao. Portanto. Entao. Vejamos. Em suma. Falou”
Ah, acho que a Juventus ganhou o campeonato deles aqui. Mas importa mais dizer que o Caxias Botao FC e a Napoli Botone ainda nao acharam adversário (a bem dizer, nem campo pra jogar). Entretanto, ambas as esquadras estao em plena forma plástico-acrílica e ficaram de certa forma gratos de nao poderem participar de torneio tao mal-organizado pela Federaçao Guajurivienense.
Agora todos descansam enquanto dois funcionários muncipais com lava-a-jato limpam o mijo do beco em frente à concentraçao. Nao disse que tudo aqui funciona direitinho?

6 de mai. de 2012

Campeonato organizado pela CGB não dá certo. 

No campeonato do sábado, a Confederação Guajuvirense de Botão recebeu participantes em número além do previsto e não teve sucesso na realização do campeonato mensal.

Devido à participação de Comissões além das expectativas, a CGB teve dificuldades em fazer cumprir o calendário do campeonato. A impossibilidade de estabelecer uma tabela e a falta de rigidez no controle do tempo de cada jogo fizeram que o campeonato tivesse alguns jogos atípicos, com goleadas, interrupções excessivas, jogos de dois contra um e partidas de iniciação para os novos times.
O San Lorenzo, grande responsável pela desvirtuação do calendário habitual, levou convidados além da conta. Depois de falhar nas diversas tentativas de negociações com o Manchester, chegou às instalações do estádio alemão, o Vielbier, acompanhado do Atlético de Medellín e do América de Cali. Mais tarde, o Millonarios, que solicitara ao time argentino fazer o reconhecimento do campo de botão, apareceu escoltado pelo Once Caldas e pela grácil companhia do Juventude. Os times inexperientes ocuparam o campo durante alguns jogos, infringiram regras descaradamente e abandonaram as tentativas alguns momentos depois.
O Barcelona, por outro lado, o segundo grande responsável pela inviabilidade do campeonato, permaneceu a maior parte do tempo do lado de fora do estádio, em animadas negociações com os numerosos representantes da seleção da Intercap. Centro de inflamadas discussões sobre a atuação de determinados jogadores e times nos diferentes campeonatos, não conseguiu atender as demandas futebolísticas e somente disputou um jogo, com uma atuação irreconhecível.
Apesar das inconvencionalidades, alguns jogos foram realizados, com uma plateia lotada, na qual compareceram amigos, irmãos e pais da seleção anfitriã.
O primeiro confronto foi responsabilidade da Alemanha e do San Lorenzo. Em menos de dez minutos o placar mostrou o resultado afortunado de 4x0 para o time argentino. No último minuto, houve o desconto alemão, a torcida invadiu o campo e foi a vez de outros times jogarem.
Sob pressões dos times anteriores, o América de Cali e o Medellín ocuparam a quadra. Os dez minutos ficaram curtos para o alto número de infrações cometidas pelos times que pareciam desorientados e desconhecedores das regras da CGB. Passado o tempo regulamentar, não demorou a saída de bola do encontro que acabou 0x0.
Logo, o Millonários enfrentou a Alemanha e, emulando a atitude antiesportiva dos outros times colombianos, faltou a diversas regras e tentou distrair a seleção com constantes comentários e perguntas estratégicas.
Em outros momentos, disputaram jogos a Alemanha e o Grêmio, que minutos antes assistia da plateia familiar (fraternal empate de 1x1), o mesmo Grêmio e um representante da seleção da Intercap (com diversas interrupções do Grêmio, atendendo ligações do resto da Comissão que não pode comparecer), o San Lorenzo e o mesmo representante da Intercap (vitória da Intercap de 1x0), e alguns outros times que mostraram jogos menos gloriosos.
O último jogo que o correspondente acompanhou foi um esquecível San Lorenzo x Barcelona, que não será computado no histórico dos jogos devido às irregularidades cometidas pelo time espanhol. Cabe salientar o único gesto do Barcelona aprovado pelo público (em parte, se atendermos aos comentários ríspidos da seleção Alemã com relação às verdades recônditas das preferências futebolísticas do coração do time espanhol): a escolha do time do Internacional para disputar tão esperado encontro, em homenagem amistosa ao técnico de dito time, que não pode comparecer por viagem à procura de novos talentos no futebol europeu. Comovido, o San Lorenzo procurou o time do Caxias para igualar o gesto espanhol. Lembrou, em seguida, que o técnico do grená viajara com todos os jogadores para buscar talentos no mundo europeu e ver se os ares do velho mundo melhoram o desempenho da equipe. Desenganado, o San Lorenzo jogou com o time titular (com os empréstimos argentinos Valdano e Zanetti). Depois de catimbear antes da saída de bola, o Barcelona, que perdera na moeda, tomou um golaço do sempre louvável Valdano (o gol foi comemorado pelo Barcelona como resposta às acusações da plateia a propósito de suas paixões futebolísticas). Com um técnico hesitante, o Nei não teve a felicidade de marcar com a saída de bola e o Inter começou a esmorecer. Estimulado pelo 4x1 inicial, o San Lorenzo atacou o time colorado durante os primeiros cinco minutos. Assustado, o técnico espanhol empregou toda sua destreza catimbística e passou a dividir o controle do time com uma técnica amadora (com grande futuro) que antes também ocupara a plateia familiar da seleção alemã. Abrandado pela ingenuidade da cotécnica do time espanhol, o San Lorenzo abandonou o jogo ofensivo e esperou o apito final para estender a mão ao Barcelona, que murmurou algo como “tu vê, fiz jogar a menina… essa vitória não conta, não?”.