Como dizem
os italianos, tchau!
Mas com
isso eles (e inclusive elas) querem dizer chega
mais, dos meu! Os portugueses,
porém, sempre tão (achei o til
num texto trazido do Brasil, e ainda fiz um versinho) tão espertos, eu dizia dos portuga, resolveram
adotar o cumprimento para fins contrários, ou seja, para fins de despedida e
assim é até hoje, embora estejamos usando mais o falou nas áreas juvenis do Rio Grande.
Mas o mundo
com sua maledetta globalizaçao vem dando frutos cada vez mais indigeríveis.
Sim, falo de música, ou pior, de pop brasileiro. Informo para vosso desgosto
(como se não bastasse o
inverno que ora entra, o fim do gauchato e o início dos pontos corridos do
brasileiro ainda mais chato a ser vencido por algum paulista cariocado ou
vice-versa) que aquela musiquinha idiota do cara aquele funciona em Perugia
para ninar criancinhas. Uma delícia. Criança chora e a mamma se põe a
cantarolar o hit do verão passado. O fim da picada, ou seja, o veneno se espalhou pelo corpo
todo e o médico se encontra perdido nos becos entre um kebabe e uma Birra
Peroni. Não existem
antídotos. Não adianta sair
do Brasile.
Claro, ou
escuro, se preferir: eles ouvem também música boa: de Bach a Lucio Dalla,
passando por Pavaroti e Pink Floyd. E o melhor: não ficam ouvindo música alta.
E os magrão magal (porque os há) não ficam botando caixa de som potente nos
autos. Talvez porque os Fiat sejam muito pequenos, que é pra caber nos becos e
poder estacionar de qualquer jeito. Louvemos a tolerância dos italianos para
com os italianos. Difícil ter briga de trânsito. O pessoal se vinga dos maus
motoristas sendo mau motorista. E funciona. Loucos são os ingleses, que
conseguem dirigir do lado errado e suportam cidades onde não bate o sol.
Aqui faz menos treze graus de noite, mais dez de manhã, mais trinta de
meio dia e volta a esfriar de tarde. Venta sempre. Um vento que vai direto nos
uvido do cara. Aquecimento na casa? Não sei como funciona, porque tem que pagar
depois e não provei. Sou pão duro mesmo. Duro e sem sal, que nem os pães
italianos. Mas sou sobretudo pobre. Difícil de explicar isso com essa minha
cara de alemão, mas rezo para que o etíope que me pediu dinheiro há pouco na
rua entenda. Esmola em euro é luxo. Gorjeta, então, nem se fala. É o principal
motivo pelo qual não vou a restaurantes, bares, padarias e coisas do gênero.
Gasto seis euros por semana para comprar um garrafão de vinho. E compro farinha
no mercado pra fazer pão de frigideira. De noite, risoto de cogumelo, ou massa
com tomate, que são as coisas que se podem comer por centavos aqui. Sobremesa?
Chupa os dedo.
Perugia, particularmente, está cheia de chinês, dos quais alguns são
sul-coreanos e taiwaneses. Lamento não ter sido educado para ver a diferença tão
nitidamente quanto a que vejo entre um alemão e um inglês. Na rua também se
podem encontrar árabes, indianos, tedescos, franceses e italianos,
naturalmente. E americanos. Sempre rosados, com um mapa na mão. A Itália é um
dicionário plurilingue.
Se eu fosse
mais espírito de porco, diria que o italiano típico tem trinta e três anos,
mora com a mamma, usa jaqueta de couro cor de cocô mole, camisa rosa “não sou gay por mais que pareça” por
dentro da calça jeans coladinha no rego, sapato vermelho ou azul, cabelo crespo
tipo poodle alto em cima e rapado dos lados, sobrancelha recém feita tipo “não sou gay por mais que pareça, tá?”,
uma cerveja Perondi na mão esquerda, um fone de ouvido/celular e um megafone na mão direita colado à boca pra falar
ainda mais alto do que os demais italianos típicos (e turistas, e estrangeiros
em desenvolvimento). Na mesma linha, eu poderia dizer que a italiana típica é
uma baranga stricto sensu, com cabelo pintado cor de táxi de Porto Alegre,
óculos rosa, shortinho azul ou verde evidenciando a ausência de bunda, pés
tortos descalços, sapatos de salto alto na mão esquerda, celular na direita, capacete de
vespa sob o sovaco, motoquinha entre as pernas, namorado com pitbull sem orelha
cortada por perto. Isso no frio. Se faz sol, ela levanta a blusa e bota a
pancinha pra pegar um bronze. Mas esses são apenas dois exemplares de
peruginos que vi na rua. A maioria dos italianos e italianas chama menos atenção. Seria como dizer que o brasileiro
típico é pagodeiro, tem cabelo descolorido com acetona, anda de cueca
aparecendo pra fora da bermuda, o retrato do Belo do Conjunto Musical Os
Marotos, se vocês se dignam a recordar. E a brasileira típica, para formar o par
perfeito, seria a Carla Peres. Ou a Sheila Carvalho. Um tchan.
De futebol,
digamos que a Perugia (nomes de times femininos, própria coisa italiana, mas é
porque se diz squadra, em vez de
time, clube) a Perugia venceu a quarta divisão e deve disputar a terceira ano que vem. E a
Ternana (vermelho e verde, o que agradaria aos torcedores de Juventude e Inter,
que abundam – mais bundam do que a – em Caxias), a Ternana de Terni venceu a
terceirona e subiu pra Série B, feito que o Caxias igualará este ano em nível
brasileiro, se a CBF deixar. A propósito, como anda o Ricardo Teixeira? Ou
melhor, o Andres Sanches? E o Mano, convocou o Oscar do Sao Paulo ou o Oscar do
Inter? Vale convocar jogador sem time definido? Se sim, indico meu amigo Pablo
da várzea da Intercap para o lugar do Josué.
Aqui tem uma quadra de basquete sempre cheia de chineses baixinhos. Os
representantes africanos, ao que parece, são sacerdotes que vêm aprender italiano para
depois pregar a palavra de Cristo na língua do vaticano (na verdade, era pra
ser latim, mas sacomé, ninguém tem tempo pra aprender a diferença entre dativo
e genitivo, entao vamos todos de italiano, que é a língua latina com menos
palavrão – só vafanculo, putana e stronzo, que nem palavrao é – quer dizer
medroso, ou cagão, se preferirem).
Futebol, que seria bom, só fora da cidade, no exíguo espaço entre uma oliveira
e uma ruína etrusca. A Itália só é tetra campeã mundial porque venceu duas copas nos anos 30
(Mussolini), uma em 82 (Paolo Rossi) e outra em 2006 (cabeçada de Zidane em
Materazzi).
Mas chega de falar mal deles, que são tri gente boa, eu é que sou subdesenvolvido e
não
consigo entender.
Esse era
pra ser o fim do texto, mas eu quero continuar escrevendo. Do que posso falar?
Ah, sim, do Caxias, que quase ganhou o campeonato do Inter. Melhor os colorados
comemorarem, que esse será a única coisa que ganharão esse ano. Vale a pena pagar
um milhão pro Dallessandro, outro milhão pro Bolivar, outro pro Wilson Matias, outro pro Lauro,
outro pro Paulo Brito e ainda outro pro Celso Roth (essas demissão sem justa
causa...)? Mas pior é o Grêmio, que gasta tanto quanto e nem vice do gauchão
consegue ser. Gladiador... Vi alguns em Roma, pedindo esmola na frente do
Coliseu. Os americanos, sempre dispostos a estender a mão para jogar uma bomba
ou bater uma foto, usam-nos (os gladiadores) para brincar de espadinha,
enquanto suas mulheres de terninho fazem fotografias a serem mostradas depois
na América (pois a América é os Estados Unidos – nós, com nossa desunião, não
merecemos portar o nome do continente).
Fim? Agora sim.
PS: a
palavra piglio se diz pilho. E prendo se diz prendo mesmo.