21 de jun. de 2013

Ainda tá foda viver, mas pelo menos não estamos morrendo de tédio

Bom mesmo é fazer protesto no Rio, no calor, no nordeste, em qualquer lugar com mar por perto pra temperar o corpo com sal, além do vinagre usado contra gases lacrimogêneos (ou lacrimoestúpedos, conforme parte dos inconformados). Em Porto Alegre marcaram “manifestação gigante”, mas não é por nada que isto se chamou o Continente de São Pedro, o padroeiro do aguaceiro: choveu baita chuva, com toques delicados de frio e um vento encorpado completando o buquê. Entretudo, as suspeitas recaem naturalmente sobre os alvos dos protestos: tinha que chover justo quando tantos curiosos e curiós tinham decidido participar? Eu era um. Curió, claro.
Eu estava louco pra ver a cara das pessoas que vão a essas passeatas, e mais ainda a cara dos policiais. Meu objetivo mor era identificar policiais à paisana e ir bater um papo com eles.  Porque, segundo últimas opiniões, a coisa está indo por aí. Estão endireitando a marcha.
De um jeito grosso: aproveitaram a pilha do pessoal contra o aumento da passagem de ônibus pra retomar ufanismos. Já tem gente decorando “O vira das pitanga” e o estoque de bandeiras canarinhas da Casa das Bandeiras está esgotado. Até os jogadores da seleção, marcadamente apáticos, decidiram “acordar”, pra usar o verbo do momento.
Hum... Algo me diz que devo ir dormir. Serão os olhos, cansados de ler, ver e piscar?
Eu gosto muito da ideia de “passe livre”. Gosto mais ainda da ideia de voto desobrigatório. A liberação dos abortos e ervas em geral também me comove. Sou “anarquista”, por falta de vontade de criar outro termo (um dia o farei). Na real, prefiro a denominação "anárquico", que rima com catártico, sorumbático, patético. E como anárquico entendo que a anarquia é impossível.
Tem gente demais no mundo, cara, não dá pra ser amigo de todos. Não dá nem pra negociar com todos. Pior: não dá pra negociar com todos sem cair em corrupção. E se não for pra entrar em acordo com todo mundo, não é anarquia. Então, se tem alguém cantando o apartidarismo nessas marchas, tenho vontade de chegar perto pra ver a cara de quem canta. Porque ele pode ser um fascista. É nisso que concordam, fascistas e anarquistas: são contra os partidos.
Certo: o fascista faz disso ditadura, e o anarquista faz disso várzea. Então tem gente que provoca o povo e a polícia pra forçar a ditadura, e tem gente que provoca pra gerar a várzea. Só que pra chegar à várzea é preciso driblar a polícia, os exércitos, os americanos (eles ainda prestam assessoria a poderes capengas, basta ligar 911). É preciso discernir, mas nada anda muito preciso. Teremos combate entre os manifestantes? As marchas se separarão? Sinto que, pra muita gente boa, os protestos já perderam a graça.
É desanimador? Pra mim isso é bom. E é provável que, se alguém ler isso aqui, acabe se animando (contra mim, como se fosse grande coisa). Boto culpa na chuva. Eu queria era ir protestar no Rio de Janeiro. Será que estão vendendo água de coco em meio à marcha?

A moral é que ainda tá foda viver, mas pelo menos não estamos morrendo de tédio, né?

18 de jun. de 2013

Motivos para protestar

“Tá tudo errado!”, diz um cartaz. “Não seja pau no cu!”, diz um outro.
Além das demandas clássicas (aumento de preços, machismo, corrupção, burocracia, caretice), esses protestos dos últimos tempos (primeiros tempos, segundo jovens fontes) contam com o que o brasileiro (e a brasileira, sua linda) tem de melhor: o deboche.
O Brasil era pra ser um estado de humor. Bom humor. A várzea ampla, esburacada, ao ar livre. O drible pelo drible, pelo prazer de entortar o adversário, sob pena de acabar quebrando o próprio joelho.
“Contra a regra do impedimento!”, outro cartaz. “Contra o tédio!”, “Contra os carros (mas aceito carona)!”.
“Pela liberdade de contradição!”
Liberdade total, pra ver se alguém descobre o que pode ser a liberdade além da busca por ela mesma.
“Não à legalização do chá de losna!”, “Viva a várzea!”.
Sobretudo, protesto pelo protesto. Nenhuma violência é gratuita. O inimigo é o espelho.
“Contra mim mesmo!”




17 de jun. de 2013

A verdadeira Copa das Confederações

O massa é que caminham pelas cidades. Descobrem novas distâncias, velhos atalhos. De repente no centro tem uma prefeitura. Uma assembléia (inclusive um dos motivos do protesto era ser contra tirar o acento no ezinho). Uma loja, um banco, um ônibus. Uma lixeira, uma tv. Uma Brasília verde-amarela no meio do caminho. E o Niemayer morreu cedo demais, não pôde ver a homenagem: as sombras de Platão no seu avião naufragado (?) no deserto. 
As rádios-esporte, acostumadas a fofocas interclubísticas empresariais, se entregaram às fofocas entre vândalos, hunos, godos, neandertais e demais espécies de cidadãos, sem falar nos contracidadãos gerais. 
Reivindicações, rainhavindicações, bobos-da-côrtevindicações. Surpresa! Tinha peãovindicações também. E poetas que alertam: "Cuidado com a intervenção américo-chinesa!". E jogadores-de-videogame que dissertam: "Isso já é a intervenção américo-chinesa!". 
A moral é que tamo aí tudo cheio de assunto. Pra quem torcia pelos saudosos anarquistas uruguaios, espanhóis, italianos, mexicanos, nigerianos, taitianos, japoneses e brasileiros, essa é a verdadeira Copa das Confederações. 

Da pentelhice


O Brasil é um país de pentelhos. Tem o pentelho que cai na sopa, o pentelho que vai frito com coxinha na rodoviária, o pentelho da gatinha que, brasileira que se preza, não se depila à brasileira, o pentelho que (ui!) entala na goela, e por aí etc.. 
Nessa Copa das Confederações, espécie de Torneio da Firma em que só jogam os eleitos do patrão, os pentelhos brasileiros não podiam deixar de abundar. Reclamam do trânsito, da chuva, do preço do ônibus, da falta de casa, da falta de educação, do estado da saúde e, claro, da mediocridade do futebol. Aquela coisa: manifestantes enchendo a agenda da polícia como pentelhos entupindo o ralo da autoridade. Deixa os home trabalhar, caçamba! Daqui a pouco vai ter protesto contra protesto, e aí quem é que vai fazer o papel do repressor? Só o que falta não ter repressor! Democracia sem demo? 
"Gente, assim ó: vamo fazer bonito", dizem os pentelhos perfumados, alisados, escondendo as próprias origens descabeladas, disfarçando os pentelhos dos ovos que eles quebram invariavelmente ao caminhar (sobre o povo, acusam uns, e então vem logo outro pentelho, cheio de chato, perguntar afinal o que é povo, e se isso não deveria ser escrito com letra maiúscula). Bá, e agora com essa internet... Qualquer um com "conta" no Livro da Cara sai pentelhando a torto e a torto, que pentelho direito é utopia. Choveu e alagou? Bota foto pra reclamar. Pastor pegou criancinha? Bota vídeo pra provar. Neymar caiu de novo? Bota placa dizendo "Eu já sabia". E dê-lhe torcer contra. O que era privilégio de anarco-bundões-niilistas, virou regra da pentelhice nacional. Importante é que dê algo errado, senão não temos do que reclamar. Que pentelho sobrevive sem uma boa comichãozinha?
Aí branco forasteiro (em carne viva ou alma morta) chega pedindo solução pra problema ainda nem criado. Quandé que é o jogo? Amanhã? Ah, tem tempo. Ondé que vai ser? Brasília? Ah, tá na mão. Contra quem mesmo? Japão? Oba! Pra cima deles, Denílson!