A Itália é uma bota. Nao se sabe quem calça essa bota, mas é certo que nao troca de meia há
muito tempo.
De outros odores, destaque para o perfume de laranjeira dos jardins católicos
apostólicos romanos, logo atrás do Coliseu, aquele destroço onde lutavam homens
e leoes, mais ou menos como hoje fazem os japoneses e americanos com suas cameras fotográficas. Mas prendamos o
fôlego e mencionemos também o cheiro de
mijo mofado que ocorre nos mais escuros becos à noite e integram a umidade
latente (patente, se se trata de fazer o número dois) dessas cidadelas
fortificadas etrusco-medievais como Perugia (o centro do mundo, segundo o mapa
mundi apresentado nas escolas brasileiras do sertao). Ufa. Podemos respirar. O
dia amanhece e o povo do primeiro mundo se bota a jogar sacos de lixo pela
janela. E, antes que passe o lixeiro, sempre surge um dálmata (vira-lata
primeiro-mundista) para espalhar a cacaquinha italiana pela calçada (como sao
as ruas aqui – tudo calçada a ser dividida com os automóveis e as lambretas).
Mas é como dizem os descendentes de Nero e Calígula: “Primeiro mundo é a puta
que pariu, isto é, os tedescos. E a culpa é dos marroquinos”.
Marroquino quer dizer qualquer descendente de
Alá. Ninguém quer saber de onde de fato vêm esses paquistaneses. O importante é
pra onde vao, e que seja pra bem longe das criancinhas. No Brasil, por outro
lado do oceano Atlântico, se diz que a culpa é dos brasileiros mesmo. E dê-lhe
polícia a fazer atraque em preto ou quase preto, como dizia o Caetano Veloso, o
branco mais branco do Brasil (quer dizer, antes dele vem o Chico Buarque).
Poder-se-ia afirmar, com a mais presunçosa das mesóclises, que o Brasil é uma
Itália e um Marrocos e uma Albânia e um Iraque e uma Líbia que se sente um Estados
Unidos melhorado, porque teve um presidente sem um dedo e uma presidenta sem
(rápido, me digam algum golpe baixo a ser dado na Dilma, rápido!). Porra, e nem
futebol a gente joga mais.
Na Itália eles chamam isso de calcio, porque o museu Leonardo da Vinci
provou, entre uma Monalisa e uma Santa Ceia, que esse elemento químico (de
símbolo Ca, fileira 2A da tabela periódica, onde se encontram os óxidos e
outras bobagens, se me lembro bem das liçoes da psora Deojanira), esse elemento
é o que permite o ser humano a meter a bola entre as traves e o travessao,
desde que ela passe pelo goleiro, sempre que exista. E nao percamos de vista
que esse coitado também é dotado de calcio, portanto tem, segundo a praça Dante
Alighieri, todas as condiçoes de fazer o seu trabalho e ser uma pedra nel mezzo del camin de quem tenta fazer
gol, ou meter a bola pra dentro, como preferem os afrescos de Caravaggio.
Mas divago. Doutor Divago. Onde é que eu tava
mesmo? Em Perugia, Via della Viola, perto della Via del Fumo (ontem mataram um
cara por aqui; dizem que um libanês que trabalhava pra máfia umbra, ou
napoletana, ou romana, ou à milanesa, nao sei – de qualquer modo, é sempre mais
chique do que trabalhar pro Alemao do morro do Sabao). Aqui meia noite. Aí
oito. Daqui a pouco deve ter Copa do Brasil. O Gremio tem que jogar de novo
contra o Fortaleza, certo? Sinto muito. E o pofexô, como vai?
E o Inter, hein? Escalando jogador irregular
pra poder empatar com o Caxias... Que feio. Que vergonha.
Aqui eles dizem senso dell’umorismo em vez de senso de humor. No Brasil, só tem
senso de humorismo quem faz mestrado sobre Millôr Fernandes, Chico Anysio, Tom
Cavalcante, que Deus o tenha.
O melhor de tudo é que na Itália nao é preciso
ter relógio, desde que se aprenda a usar as igrejas, isto é, os campanelos, ou
seja, os campanários, quer dizer, os sinos, aliás, os badalos, bimbolaros,
badauês, abadás, berimbaus, dins e dons que anunciam o passar dos quartos de
hora. Per esempio, 3 blemblemblens inteiros, tonitruantes (viva a língua
portoghese) significam 3 horas, mas 3 toques débeis (dez decibéis) informam que
faltam 15 minutos para a hora cheia. E così via.
Importante informar que se pode pegar ônibus
sem pagar. Depois tu fica torcendo pra nenhum fiscal aparecer. Mas nao
aparecem. Dizem que fiscais, na Itália, sao tao raros quanto acentos
indicadores de nasal, a saber, o til. Vai ver é por isso que ninguém consegue
pronunciar a palavra pao por aqui.
Agora vejamos uma típica fala italiana:
“Ok. Certo. Va bene. Poi. Allora.
Dunque. Adesso. Quindi. Ebbene. Ecco. Vediamo. Insomma. Arrivederci”
E uma possível traduçao:
“Ok. Certo. Beleza. Entao. Portanto. Pois. E
agora. Entao. Portanto. Entao. Vejamos. Em suma. Falou”
Ah, acho que a Juventus ganhou o campeonato
deles aqui. Mas importa mais dizer que o Caxias Botao FC e a Napoli Botone ainda
nao acharam adversário (a bem dizer, nem campo pra jogar). Entretanto, ambas as
esquadras estao em plena forma plástico-acrílica e ficaram de certa forma gratos de nao
poderem participar de torneio tao mal-organizado pela Federaçao
Guajurivienense.
Agora todos descansam enquanto dois
funcionários muncipais com lava-a-jato limpam o mijo do beco em frente à
concentraçao. Nao disse que tudo aqui funciona direitinho?
Porra, isso do cheiro é uma coisa muito curiosa. Na França também não é assim? O mito não é que inventaram o perfume porque era um lugar fedorento com pessoas fedorentas? E outro não é que nos métro as pessoas não se importam com feder em abundância? É curioso que na Itália o cheiro seja abundante também. Ou será que é pura inadaptação do nariz, que alerta dos fedores só por não reconhecer os matizes? Vou começar a preguntar pros europues que vem pra cá se acham a cidade mais ou menos cheirosa do que suas cidades natais. Se eu fosse marroquino em algum desses países e me discriminassem, ia gostar de responder "marroquino, mas limpinho". Tá, no final talvez eu acrescentasse "seu filho da puta", mas aqui eu não preciso dizer porque tou falando do cheiro.
ResponderExcluir"... e uma presidenta." Teria escrito eu. Não que isso seja golpe baixo pra Dilma (o fato de ser mulher) não, não, só que me parece que os EEUU teriam gostado de ter feito isso primeiro.
Cara, o InterxCaxias terminou agora há pouco. Estou em casa e não sei do resultado, mas posso te dizer que ouvi um grito assim "Acabou pra ti secador", e três momentos de comemoração. Sei lá, acho que isso pode te dizer alguma coisa. Se tu tiver preguiça de procurar online o resultado, claro. Eu só posso comentar que achei o jogo uma merda. Não porque tenha assistido, mas porque um dos gols me acordou da sesta que tava fazendo, com esse domingo tão soleado (sem ironias) e propício pra dormir, como todo domingo.
Cara, isso do diálogo é uma maravilha. É a fala sintética. Primeiro mundo, cara, eles sempre tão lá na frente. Se essa fala acontecesse aqui, dava briga no final. Mas aí não, aí eles devem se abraçar depois disso, e se afastar pra mijar em algum beco próximo. Primeiro mundo, meu, tudo de bom.