Bom mesmo é fazer protesto no Rio, no calor, no nordeste, em
qualquer lugar com mar por perto pra temperar o corpo com sal, além do vinagre
usado contra gases lacrimogêneos (ou lacrimoestúpedos, conforme parte dos inconformados).
Em Porto Alegre marcaram “manifestação gigante”, mas não é por nada que isto se
chamou o Continente de São Pedro, o padroeiro do aguaceiro: choveu baita chuva,
com toques delicados de frio e um vento encorpado completando o buquê.
Entretudo, as suspeitas recaem naturalmente sobre os alvos dos protestos: tinha
que chover justo quando tantos curiosos e curiós tinham decidido participar? Eu
era um. Curió, claro.
Eu estava louco pra ver a cara das pessoas que vão a essas
passeatas, e mais ainda a cara dos policiais. Meu objetivo mor era identificar
policiais à paisana e ir bater um papo com eles. Porque, segundo últimas opiniões, a coisa está
indo por aí. Estão endireitando a marcha.
De um jeito grosso: aproveitaram a pilha do pessoal contra o
aumento da passagem de ônibus pra retomar ufanismos. Já tem gente decorando “O
vira das pitanga” e o estoque de bandeiras canarinhas da Casa das Bandeiras
está esgotado. Até os jogadores da seleção, marcadamente apáticos, decidiram
“acordar”, pra usar o verbo do momento.
Hum... Algo me diz que devo ir dormir. Serão os olhos,
cansados de ler, ver e piscar?
Eu gosto muito da ideia de “passe livre”. Gosto mais ainda
da ideia de voto desobrigatório. A liberação dos abortos e ervas em geral
também me comove. Sou “anarquista”, por falta de vontade de criar outro termo
(um dia o farei). Na real, prefiro a denominação "anárquico", que rima com catártico, sorumbático, patético. E como anárquico entendo que a anarquia é impossível.
Tem gente demais no mundo, cara, não dá pra ser amigo de
todos. Não dá nem pra negociar com todos. Pior: não dá pra negociar com todos
sem cair em corrupção. E se não for pra entrar em acordo com todo mundo, não é
anarquia. Então, se tem alguém cantando o apartidarismo nessas marchas, tenho
vontade de chegar perto pra ver a cara de quem canta. Porque ele pode ser um
fascista. É nisso que concordam, fascistas e anarquistas: são contra os
partidos.
Certo: o fascista faz disso ditadura, e o anarquista faz
disso várzea. Então tem gente que provoca o povo e a polícia pra forçar a
ditadura, e tem gente que provoca pra gerar a várzea. Só que pra chegar à
várzea é preciso driblar a polícia, os exércitos, os americanos (eles ainda
prestam assessoria a poderes capengas, basta ligar 911). É preciso discernir,
mas nada anda muito preciso. Teremos combate entre os manifestantes? As marchas
se separarão? Sinto que, pra muita gente boa, os protestos já perderam a graça.
É desanimador? Pra mim isso é bom. E é provável que, se
alguém ler isso aqui, acabe se animando (contra mim, como se fosse grande
coisa). Boto culpa na chuva. Eu queria era ir protestar no Rio de Janeiro. Será
que estão vendendo água de coco em meio à marcha?
A moral é que ainda tá foda viver, mas pelo menos não
estamos morrendo de tédio, né?
Parou por quê? Por que parou?
ResponderExcluirArrumei um emprego, cara... Aí engravidei, financiei um carro, um apartamento, virei crente, enfim. Na próxima crise de meia idade a gente volta.
ResponderExcluirEsse cara é inspirador! http://oglobo.globo.com/rio/perfil-afonsinho-homem-que-mudou-jogo-9691469
ExcluirVê se te inspira e volta que a Copa ta aí!